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Um pássaro sem poiso

Palavras soltas, livres, voando por aí

Um pássaro sem poiso

Palavras soltas, livres, voando por aí

12.12.19

Filosofia de vida


Isa Nascimento

Lou Marinoff, filósofo norte-americano autor do célebre livro “Mais Platão, menos Prozac”, afirma que todos temos uma filosofia de vida pela qual nos regemos, embora às vezes precisemos de ajuda para a encontrar ou perceber dentro de nós.

Fiquei a pensar qual seria a minha.

Não sei se é correto chamar-lhe "filosofia", mas é seguramente uma "convicção": Nunca proceder da mesma forma que aqueles que critico, pois isso torna-me ainda pior do que eles.

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11.12.19

Folhas caídas


Isa Nascimento

Caem vagarosamente

Pintando o chão de ocre e fogo.

Leva-as o vento no lamento

Do verão que fica para trás.

 

Tal aguarelas coloridas

Pintam parques e ruelas.

Chutam-nas divertidos os miúdos

Com o crepitar debaixo dos pés.

 

E trazem o frio e a chuva,

E o cheiro a castanha assada.

Levam confissões e promessas,

E o canto das aves que p’ró ano regressam.

Fotografia 2005 (57).jpg

 

10.12.19

Já não há dia da família


Isa Nascimento

Hoje soube que o estúdio de yoga vai encerrar na semana de Natal. A professora comunicou-o com algum receio na voz, como se estivesse a pedir desculpas pelo facto.

Comentei que não me chocava, que achava bem esse intervalo numa semana em que o descanso e o tempo em família é tão importante.

 

A este propósito pensei na quantidade de pessoas que trabalham arduamente nesta época para alimentar o consumismo desenfreado que cria engarrafamentos fora da hora de ponta e leva ao prolongamento do já extenso período de funcionamento das superfícies comerciais.

Lembrei-me então daquele tempo em que estava quase tudo fechado ao domingo.

Sim, é verdade, eu sou desse tempo…

Durante a semana havia as obrigações do trabalho para os pais e da escola para os miúdos.

O sábado era o dia das compras e das limpezas da casa.

E o domingo era o dia em que a família estava toda reunida.

 

Ao domingo podíamos acordar mais tarde, passear e visitar amigos. Na casa dos meus pais, o almoço de domingo era sempre especial e com direito a sobremesa. Tudo maravilhosamente confecionado pela minha mãe, emanando cheiros que ainda hoje me fazem crescer água na boca só de os recordar.

Era o único dia em que eu e os meus irmãos podíamos entregar-nos afincadamente ao processo de preparação de um café Mokambo. Primeiro o pó, depois o açúcar e uma pinga de água quente. Seguia-se a mistura, o mais depressa que conseguíssemos, para envolver tudo e fazer espuma. A qualidade do café que preparávamos era determinada pelas características da espuma: tinha de ser cremosa, de cor clara e cobrir toda a superfície da chávena. 

 

Atualmente vivemos uma realidade oposta. Há inúmeras profissões exercidas 7 dias por semana, frequentemente em turnos distribuídos ao longo das 24 horas do dia. Folga-se um domingo ou dois por mês, há um fim de semana completo ocasionalmente e o dia de Natal é muitas vezes celebrado com os colegas e não com a família. Quem diz o Natal, diz o Dia de Ano Novo, a Páscoa, o Dia da Mãe que se celebra sempre no primeiro domingo de maio…

 

Os tempos mudaram. Toda a gente deseja ter o que precisa à sua disposição 24 horas por dia (ou quase). Dizem que isto aumentou o número de empregos disponíveis. Talvez… Mas que tipo de empregos, com que remuneração e a que custo para as famílias?

 

Não sei responder a estas perguntas, mas atrevo-me a afirmar que esse “consumismo desenfreado“ extinguiu o dia da família…

 

Sinto uma ponta de saudosismo. Ainda que saiba que a  globalização e a tecnologia nos facilitaram muito a vida, lamento que os meus filhos, e todas as gerações mais jovens, não tenham podido desfrutar de mais momentos destes, tranquilamente em família, um dia por semana e sem um ecrã â frente.

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09.12.19

Esquecer de viver


Isa Nascimento

Fugimos da vida todos os dias

Sempre à pressa para chegar a qualquer lado

Para fazer qualquer coisa

Para lembrar algo que queremos esquecer.

 

Olhamos pela janela e não vemos

Aquela flor ainda em botão

O pardal a debicar uma migalha

Os miúdos a jogar à bola.

 

Ligamos a televisão sem pensar

Para não falar

Para não lembrar

Para que pareça estar tudo bem.

E mais um dia passa que esquecemos de viver.

 

Outubro de 2011

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07.12.19

A letra H...


Isa Nascimento

Uma letra incompreendida, muitas vezes esquecida. Quantos de nós não se perguntaram já por que raio ela existe se “não está lá a fazer nada”…

O curioso é que a letra H é a inicial de palavras riquíssimas, preciosas, como Honra, Honestidade, Humildade, Humanidade, Harmonia, Heroísmo

Assim, como dei comigo com Humor a pensar nela, resolvi desejar que a letra H e esses preciosos valores que encerra em si, tão aclamados na quadra natalícia, tenham uma longa e próspera vida!

 

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06.12.19

Calm days


Isa Nascimento

How peaceful it would be

Not to feel anything

Not to dream about darkness

Or desperately awaken

Trying to escape from

Your deepest fears

Staying in tranquil numbness

Simply existing

Without desire

Frustration

Or despair

Without the need

To love

To appreciate

Or to be loved back

Calm days

Neither happiness

Nor sadness

Neither wishing

Nor receiving

Simply hearing yourself breathing

 

Outubro de 2016

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05.12.19

O raminho no meu parapeito


Isa Nascimento

No meu parapeito estava um raminho

Caído, inerte, recebendo o dia que despontava.

Nas várias folhas amarelas suas filhas

Brilhavam as gotas da chuva da noite

Dando-me os bons dias quando abri a janela.

 

Era só um raminho morto e imóvel

Mas assim enfeitado de cristais

Esperando, coroado de brilhantes, que o vento o levasse

Tornou-se meu e especial.

 

Novembro de 2019

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