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Um pássaro sem poiso

Palavras soltas, livres, voando por aí

Um pássaro sem poiso

Palavras soltas, livres, voando por aí

08.08.20

30/30 | 10


Isa Nascimento

Já não me importo

Que chegues quando podes

Que partas quando precisas

Que fiques apenas o suficiente

 

Aprendi a contentar-me com o suficiente

 

Já não quero mais

Porque as horas que me sobram

Já não custam a passar

Matei as saudades

Afoguei-as no fundo do mar

Num dia qualquer

De um agosto qualquer

Nas nossas vidas inconciliáveis

 

Aprendi a reconciliar-me sozinha

 

Já não espero

Desfruto, simplesmente, do possível

Acolhendo o que tens para me dar

Sem queixume

 

Aprendi a não desejar

 

Agosto de 2020

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07.08.20

30/30 | 9


Isa Nascimento

Dizem que a noite é boa conselheira.

Por isso saí para caminhar,

Numa noite amena de verão.

 

Lá fui, em busca de conselho

Procurando a lua para conversar.

Em vão procurei por ela

No breu salpicado de estrelas.

Por onde andaria não sei

Mas comigo não quis falar.

 

Fui então ao lago

Ver se os peixes ainda bailavam.

Mas os peixes já dormiam

Embalados pelo farfalhar das folhas ao vento.

Encontrei somente as rãs de guarda

Coaxando para me afugentar.

 

Perscrutei ainda as copas das árvores

Vislumbrando um melro ao longe.

Mas logo voou para outro poiso

Por não ser bom a aconselhar.

 

No silêncio da escuridão me quedei

Contemplando a quietude noturna.

Escutei então das vozes sem rosto

Um segredo contado em surdina:

O passado é nada e o futuro é vago,

tudo se dá e recebe no presente,

precioso e brilhante como as luzes no lago.

 

Agosto de 2020

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05.08.20

30/30 | 7


Isa Nascimento

Está frio

Nem o sol de verão aquece o ar fresco da manhã

 

O vento, zangado, brinca com as folhas esquecidas no chão

A pombas esperam, aconchegando-se numa rua soalheira

 

Esqueço que é verão

Convicta de que o inverno está para chegar

Sinto um arrepio pela falta de agasalho

Ou, talvez, pela falta de outra coisa qualquer

 

Não importa

O cenário transcende-me

Sei que o verão voltará amanhã

 

Agosto de 2020

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04.08.20

30/30 | 6


Isa Nascimento

30/30 | 6

 

Ding dong soa a campainha

Serás tu meu amor?

 

Tic tac se arrasta o relógio

Enquanto anseio por te ver.

 

Pim, pam, pum cantarolo baixinho

Matando o tempo à tua espera.

 

Trim trim toca o telefone

Levanto-me a correr para atender.

 

Vrum vrum resmungam os carros

Quando espreito à janela.

 

Toc toc batem à porta

Estarás, meu amor, a chegar?

 

Agosto de 2020

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03.08.20

30/30 | 5


Isa Nascimento

Alguém, há dias, me dizia

A poesia, o amor e a luz estão no ar,

é preciso apenas o instrumento certo para os apanhar…

 

Ficou-me a frase retida na mente

Esvoaçando, insistente,

Suplicando que fizesse algo com ela.

 

Sem saber por onde mais começar

Transformei-a em borboleta

E deixei-a poisar no bico da minha caneta.

 

Levou-me então pelas linhas do meu caderno

Onde à vida jurei amor eterno

E às estrelas roubei a luz para me iluminar o caminho.

 

Mas logo a borboleta saiu a voar,

Nas asas levando a luz e o amor

Deixando-me em troca a poesia de uma flor.

 

Agosto de 2020

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02.08.20

30/30 | 4


Isa Nascimento

A roda já foi inventada, vezes sem conta…

A pólvora não desejo reinventar…

 

Com tudo inventado

Sem nada para reinventar,

Que farei eu nesta vida

Para além de copiar?

 

Imaginar, talvez com novas cores,

Amores e desamores idos

Já chorados noutras vidas

Imortalizados por outros tantos poetas.

 

Apropriar-me do fado que não é meu

Aligeirando este destino que é meu,

Recontando histórias outrora cinzentas

Nos tons garridos da alegria.

 

Agosto de 2020

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