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Um pássaro sem poiso

Palavras soltas, livres, voando por aí

Um pássaro sem poiso

Palavras soltas, livres, voando por aí

16.09.20

Sombras


Isa Nascimento

As sombras dançam ao sabor do vento

Contra um muro branco que as aviva

Sombras de flores ondulantes

Sincronizadas no mesmo bailado

Tais serpentes encantadas

Não por uma flauta tocada na rua

Mas pelo canto melodioso das aves

Pleno de acordes harmoniosos

Que só o silêncio do campo

Permite escutar

 

De vez em quando o vento muda

Em rajadas mostra a sua zanga

Começam as sombras a esbracejar

Agitadas contra aquela parede caiada

 

Ralham então as flores com a nortada

Que as faz assim acotovelar-se

E logo cala os trinados dos pássaros

Que procuram abrigo assustados

 

Ficam as flores sem compasso

Nem chilreios para bailar

No muro sombras desnorteadas

Nas árvores apenas farfalhadas

 

Setembro de 2020

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11.09.20

Fantasia


Isa Nascimento

O que vivemos sabe-me a sonho

É irreal, surreal como esta era.

Não passará de um boa memória

No meio de muitas outras,

Más e inquietantes.

Terminará como todos os sonhos.

 

Ainda que esta noite pareça mais longa,

O despertar virá com a aurora.

Numa manhã qualquer

Acordarei na tua ausência

E assim continuaremos,

Como antes,

Quando a normalidade voltar

Com o amanhecer habitual.

 

Abril de 2020

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10.09.20

Um dia talvez


Isa Nascimento

Talvez me apaixone por ti

Pelo teu sorriso jovial de adolescente.

Talvez te entranhes nos meus poros

Passando a fazer parte de mim.

Um dia, quem sabe, precisarei de ti

Como do ar que respiro.

O dia se fará noite se não estiveres por perto

E nessa noite serás eterno.

Um dia, quem sabe, serás o meu farol

Conduzindo-me segura para o teu abraço.

Um abraço que se tornará, talvez, o meu abrigo,

O porto seguro onde lançaremos âncora os dois.

 

Dezembro de 2015

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05.09.20

Ilações em tempo de quarentena | coletâneas Chiado Books


Isa Nascimento

Neste tempo de recolhimento, um termo que prefiro ao “isolamento” ou ao “confinamento” por convidar à reflexão, sinto-me uma privilegiada e grata por isso. Tenho teto e trabalho. Uma família unida e saúde. Um local próximo para caminhar mantendo o distanciamento social enquanto apanho sol e oiço os pássaros a cantar.

Sinto também um ar “estranho” à minha volta, como se estivesse a viver um sonho, ou num sonho. Não é só medo. É a frustração global perante um futuro incerto e imprevisível.

Na minha memória, desta época ficará a sensação generalizada da nossa pequenez e impotência perante uma ameaça invisível que parece ter vindo para ficar. Teremos de aprender a viver com ela e, acima de tudo, a não repetir os erros que a lançaram sobre nós.

Esta nova doença não é um castigo de Deus nem uma revolta da Natureza, é apenas uma consequência dos nossos abusos sobre o planeta Terra. Não podemos continuar a invadir os espaços a que não temos direito e que são vitais para a preservação da fauna e da flora. Não podemos continuar a explorar até à exaustão os recursos naturais.

A história da humanidade diz-nos que ultrapassaremos as dificuldades e construiremos uma nova realidade. Mas é importante que essa realidade seja mais equilibrada e sustentável. A segurança da nossa espécie exige um maior respeito pela Natureza. A nossa saúde depende da saúde do planeta Terra.

Que a quarentena nos possa trazer maior sensatez!

 

Autor: Isa Nascimento

Texto incluído em:

Coletânea "Quarentena - Memórias de um país confinado", Chiado Books. Agosto de 2020

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