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Um pássaro sem poiso

Palavras soltas, livres, voando por aí

Um pássaro sem poiso

Palavras soltas, livres, voando por aí

16.06.20

Alguém vestiu uma árvore


Isa Nascimento

Não sei há quanto tempo, mas pelo estado desgastado da sua roupa, diria que já a usa há uns bons meses. Passei por ela muitas vezes sem a ver, como é normal quando andamos pelas ruas, absortos nos nossos pensamentos, provavelmente com pressa para chegar a qualquer lado.

Parece-me óbvio que a sua vestimenta nada teve a ver com os assomos de criatividade despertados pela COVID-19, mas foi graças à pandemia que vi aquela árvore, numa tarde mais ou menos soalheira em que me atrevi a ir beber café fora de casa. Peguei no meu copinho de cartão e atravessei a rua, em busca de sol, quando dei de caras com ela!

Ali estava, vaidosa e indiferente às angústias dos poucos passantes, exibindo as suas vestes feitas de quadrados de croché de lã colorida. 

Uma árvore vestida de arco-íris e tradição, que me fez regressar a casa da minha avó materna. Vi novamente os inúmeros saquinhos com novelos de lã e muitas amostras de pontos e combinações de cores onde eu adorava bisbilhotar. Recordei as várias peças de croché a cobrir as costas e os braços do sofá da sala, as almofadas, as pegas da cozinha...

Deixei-me ficar a contemplá-la enquanto saboreava o meu café, absorvendo o momento para que se impregnasse na minha memória, para que nunca me abandonasse.

Estarei sempre grata àquela árvore que tornou o meu dia especial e a quem tão originalmente a vestiu. 

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