Em viagem
Gosto de andar de comboio.
Pela janela vejo o filme da minha vida
Relances de casas antigas e presentes
Instantâneos de fábricas outrora grandes
Letreiros gigantes, enferrujados
Antes cheios de esplendor
Agora agarrados a edifícios igualmente decadentes.
É cedo, mas há já quem corra à beira dos campos
Amantes de tracking e ciclismo
Gente madrugadora
Que cumprimenta o dia ainda antes de ser dia
Campos verdejantes e salinas
Canaviais a encobrir as povoações
Os rios cheios que refletem a luz que desponta.
Gosto de andar de comboio.
Especialmente quando viajo só.
Antecipo a celebração do reencontro
Com aqueles que me aguardam
Ansiosos, no fim da linha.
Enquanto espero que as horas passem
E o gigante cavalo de ferro avança,
Entretenho-me a olhar o céu
A procurar por entre as nuvens
Os pedaços de azul imaculado
Incólume às marcas do tempo
Recipiente de todos os sonhos
Panteão que abriga todas as almas.
Vejo os pinhais envolvidos p’la neblina
Encobrindo a vegetação e os animais
Mostrando-se misteriosos e tentadores.
Chamam por mim as almas penadas
Deambulando entre os pinheiros
Clamando por misericórdia
Rogando pelo dia da ascensão
Que libertará a sua alma
Do mundo terreno, frio e sem cor
Onde estão prisioneiras.
Já o disse, é certo, mas não é demais repetir
O quanto gosto de andar de comboio.
Do reencontro comigo, da introspeção
Da oportunidade de divagar
Ou de aquietar a mente
Se algo que vejo da janela me sobressalta a alma.
Se dormisse, como quase todos os restantes companheiros de viagem
As horas passariam mais depressa
Mas levariam com elas a ocasião única
De olhar pela janela e, a cada momento,
Ver algo novo.
Não haveria nada para recordar
Nem saborearia a satisfação do avanço
Avanço do comboio
Avanço da vida
Avanço da viagem que se faz todos os dias
Enquanto os fardos de feno aguardam
Enrolados, nos prados.
O meu comboio não deveria parar,
Mas para, e até isso me diverte
Porque na minha vida também parei
Quando não devia, mas tinha de ser.
E a cada vez que recomecei, foi com novo vigor
Ainda que às vezes lentamente
Sem pressas, como o meu comboio
Porque já não tenho vagar para pressas.
Setembro de 2018

