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Um pássaro sem poiso

Palavras soltas, livres, voando por aí

Um pássaro sem poiso

Palavras soltas, livres, voando por aí

28.01.20

Em viagem


Isa Nascimento

Gosto de andar de comboio.

Pela janela vejo o filme da minha vida

Relances de casas antigas e presentes

Instantâneos de fábricas outrora grandes

Letreiros gigantes, enferrujados

Antes cheios de esplendor

Agora agarrados a edifícios igualmente decadentes.

 

É cedo, mas há já quem corra à beira dos campos

Amantes de tracking e ciclismo

Gente madrugadora

Que cumprimenta o dia ainda antes de ser dia

Campos verdejantes e salinas

Canaviais a encobrir as povoações

Os rios cheios que refletem a luz que desponta.

 

Gosto de andar de comboio.

Especialmente quando viajo só.

Antecipo a celebração do reencontro

Com aqueles que me aguardam

Ansiosos, no fim da linha.

Enquanto espero que as horas passem

E o gigante cavalo de ferro avança,

Entretenho-me a olhar o céu

A procurar por entre as nuvens

Os pedaços de azul imaculado

Incólume às marcas do tempo

Recipiente de todos os sonhos

Panteão que abriga todas as almas.

 

Vejo os pinhais envolvidos p’la neblina

Encobrindo a vegetação e os animais

Mostrando-se misteriosos e tentadores.

Chamam por mim as almas penadas

Deambulando entre os pinheiros

Clamando por misericórdia

Rogando pelo dia da ascensão

Que libertará a sua alma

Do mundo terreno, frio e sem cor

Onde estão prisioneiras.

 

Já o disse, é certo, mas não é demais repetir

O quanto gosto de andar de comboio.

Do reencontro comigo, da introspeção

Da oportunidade de divagar

Ou de aquietar a mente

Se algo que vejo da janela me sobressalta a alma.

 

Se dormisse, como quase todos os restantes companheiros de viagem

As horas passariam mais depressa

Mas levariam com elas a ocasião única

De olhar pela janela e, a cada momento,

Ver algo novo.

Não haveria nada para recordar

Nem saborearia a satisfação do avanço

Avanço do comboio

Avanço da vida

Avanço da viagem que se faz todos os dias

Enquanto os fardos de feno aguardam

Enrolados, nos prados.

 

O meu comboio não deveria parar,

Mas para, e até isso me diverte

Porque na minha vida também parei

Quando não devia, mas tinha de ser.

E a cada vez que recomecei, foi com novo vigor

Ainda que às vezes lentamente

Sem pressas, como o meu comboio

Porque já não tenho vagar para pressas.

 

Setembro de 2018

Lisboa 057.JPG

 

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