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Um pássaro sem poiso

Palavras soltas, livres, voando por aí

Um pássaro sem poiso

Palavras soltas, livres, voando por aí

05.01.20

Liberdade de expressão


Isa Nascimento

Quando andava na faculdade, vivi algum tempo com uma colega de curso, amiga desde o dia das matrículas do 1.º ano até hoje.

Esta minha amiga, galhofeira e bem-disposta, resolveu um dia afixar na porta da casa de banho do nosso estúdio um papel com a frase “É tão bom fazer cocó! 😊”. Esta singela folha A4 branca, com uma frase cuja veracidade ninguém se atreveu a contestar, causou as mais variadas reações, desde o sorriso franco imediato, até ao desconforto que levou alguns a sugerir que o mesmo fosse retirado daquele lugar tão exposto.

Mas, se é mesmo verdade que o alívio sentido após uma “evacuação completa”, a expressão formal para representar a dita ação fisiológica, é realmente bom, por que motivo se considera “inadequado” escrevê-lo ou dizê-lo oralmente? A explicação reside no próprio tema, as manifestações externas do nosso sistema digestivo são um tema tabu

E se este é um exemplo muito ingénuo de um tema que causa pruridos quando abordado de forma humorística, outros há bem mais polémicos, como a religião, a política, a orientação sexual, etc.

Haverá, de facto, temas sobre os quais não temos o direito de falar abertamente, conforme nos apetece? A liberdade de expressão diz que não, afirmando que qualquer um de nós tem o direito de exprimir livremente a sua opinião, quer o faça de forma verborreica ou lacónica. Não importa como o fazemos, pois todos temos o direito de expressar a nossa opinião…

Apesar de concordar com o direito à liberdade de expressão, acredito que o contexto em que o exercemos o condiciona.

“Deitar cá para fora” o que nos vai no pensamento é, na sua essência, inócuo e/ou positivo, afinal, são só palavras… Contudo, quando essas palavras se dirigem a alguém em concreto, que as “levará a título pessoal” (como qualquer um de nós levaria…), não teremos o dever, ao exercer aquele direito, de refletir sobre o nosso impacto ao proferir aquelas palavras?

Quando manifestamos as nossas opiniões através das palavras, diretamente a uma pessoa, o positivismo inerente à liberdade de expressão torna-se muito relativo.

As palavras são poderosas. Tornam-se ainda mais fortes quando emolduradas por uma expressão facial condicente e um tom de voz a combinar. Por isso se afirma que o verdadeiro poder está no “como” se diz, muito mais do que no “conteúdo” daquilo que se diz.

Se uma simples frase como aquela, afixada à porta de uma casa de banho, pode causar desconforto ou boa disposição, não é difícil imaginarmos o impacto que as nossas palavras podem ter na pessoa que nos ouve ou lê.

Já perdi a conta às vezes que disse a mim própria que “devia falar menos”, pois em muitas ocasiões, o impacto que causei foi muito diferente daquele que esperava. Infelizmente não consigo falar menos, escrever menos ou comunicar menos.

Assim, vou sendo mais rigorosa nas palavras que escolho e criteriosa nas opiniões que emito. Acima de tudo, antes de opinar, reflito sempre sobre se poderei causar desconforto ou sofrimento a alguém com aquilo que vou dizer, com algo que poderá ser meramente a minha opinião… e as opiniões são apenas e só isso, valem o que valem para cada um de nós.

Às vezes, assumir a liberdade de expressão poderá ser escolher não exercer esse direito.

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