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Um pássaro sem poiso

Palavras soltas, livres, voando por aí

Um pássaro sem poiso

Palavras soltas, livres, voando por aí

21.10.19

Não falavas de amor, mas enchias de amor tudo o que fazias | coletâneas Chiado Books


Isa Nascimento

Olá mãe,

Gostaria de poder começar esta carta dizendo que espero que te encontres bem. Infelizmente, sei que não te encontras bem e que nunca mais estarás bem. Talvez até tenha de ser o pai a ler-te a minha carta, mas não quis que isso me demovesse de ta escrever.

Antes de mais, peço-te que me perdoes por ter esperado tanto tempo. Habituaste-nos a não sermos piegas e, de facto, raramente te vi chorar. Acho que foi por isso que não te escrevi antes, tinha receio de que me achasses piegas. Agora receio que seja tarde de mais e que já não consigas entender as minhas palavras.

Apesar de teres sido uma mãe dura, eras carinhosa à tua maneira e acabei por conseguir entender que a tua forma de mostrares que nos amavas era cozinhando as nossas comidas favoritas, enfeitando os nossos bolos de aniversário de acordo com o gosto de cada um, deixando-nos usar os lençóis para montar tendas nos quartos e ensinando-nos a valorizar a família. Ainda hoje me recordo de como era bom chegar da escola e sentir o cheiro dos teus cozinhados. Cozinhavas tão bem, mãe. Quero que saibas que chego a sentir água na boca quando me lembro daquela deliciosa carne estufada com batata frita às rodelas.

Houve vezes em que me ressenti pela ausência de um abraço e pela rispidez das tuas palavras, mas hoje entendo porque o fazias. Imagino-me na tua pele e em como terá sido difícil para ti criares-nos a todos, sozinha. Quando consigo vestir a tua pele amo-te ainda mais. E era isso que te queria dizer, que embora raramente tenhas conseguido demostrar afeto por palavras ou carinhos, sei que nos amaste muito e da melhor forma de que foste capaz. Não falavas de amor, mas enchias de amor tudo o que fazias, desde o simples chá de limão para curar uma constipação, até ao elaborado vestido que fizeste para o meu baile de gala da faculdade.

Amaste-nos tanto que nunca tentaste influenciar as nossas escolhas. Desde que nos tornássemos mulheres e homens honestos e trabalhadores, estava tudo bem. Não me vou alongar mais, minha querida mãe, pois não quero que fiques cansada por causa de uma carta demasiado longa. Por isso me despeço já, dizendo-te que me arrependo de não te ter abraçado sempre que tive vontade e que gostaria que o tempo voltasse atrás só para te poder abraçar e ter a certeza de que entenderias quando te dissesse que o meu amor por ti será eterno.

Beijo grande da tua filha Marta.

 

Autor: Isa Nascimento

Texto incluído em:

 II Volume da "Colectânea de Cartas de Amor: Três Quartos de Um Amor", Chiado Books. Fevereiro de 2019

Três quartos de um amor.jpg

 

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